3.4.16

Quatro aspectos da experiência da ressurreição de Jesus

25.11.15

Mulheres como coisas, sexo e estupro na Bíblia

A Bíblia, em boa parte dos casos, não trata bem a pessoa humana. As mulheres são tratadas como propriedades dos homens.
Quando o mandamento proíbe cobiçar a mulher do próximo ela não passa de um objeto entre outros de propriedade do próximo que podem ser objeto de cobiça.
Hoje estive pensando sobre sexo e estupro no AT.
Abraão tem uma escrava, Hagar, que vira sua escrava sexual, forçada a ter sexo com seu dono para lhe gerar um filho. Os autores do texto não tem nenhuma preocupação em denunciar o modo como o pai da fé trata aquela mulher.
Jacó usa duas escravas para ter filhos.
Um e outro fazem uso de violência sexual como se fosse natural. E a Bíblia, em nenhum lugar, os recrimina. Para os seus autores, eles fizeram o que tinham o direito de fazer. Não pecaram.
Mas o episódio do qual muito me lembrei hoje se dá quando Absalão lidera uma revolta contra seu pai, Davi. Davi tinha um harém (ou seja, escravas sexuais a quem a Bíblia trata eufemisticamente de concubinas). Ao fugir de Jerusalém, Davi deixou algumas dessas mulheres para tomar conta do palácio.
Absalão, seguindo seus conselheiros, decide estuprar todas diante dos olhos da cidade inteira. Era um modo de afirmar que tomara o poder do pai tomando seu harém.
Para mim, a situação se agrava depois que Absalao é morto: ao retornar a Jerusalém, Davi decide trancafiar as concubinas - que depois de uma vida como escravas sexuais, haviam acabado de serem estupradas em via pública. As vítimas foram punidas porque o poder do rei precisava ser reafirmado. Nunca mais saíram às ruas.
Essas mulheres sem nome, sem rosto e sem vida não recebem uma palavra de defesa, apoio ou afeto de nenhum cidadao, do rei ou mesmo de qualquer outro autor biblico.
Hoje pensei que nós homens seguimos mantendo igual mentalidade.
Preciso urgentemente entender melhor e combater o patriarcado a partir de mim mesmo.

22.11.15

Texto da minha reflexão por ocasião do funeral de minha avó, Aurea Araújo Dantas

Este é o registro da descendência de Adão: Quando Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez;
homem e mulher os criou. Quando foram criados, ele os abençoou e os chamou Homem.
Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete.
Depois que gerou Sete, Adão viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 930 anos e morreu.
Aos 105 anos, Sete gerou Enos.
Depois que gerou Enos, Sete viveu 807 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 912 anos e morreu.
Aos 90 anos, Enos gerou Cainã.
Depois que gerou Cainã, Enos viveu 815 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 905 anos e morreu.
Aos 70 anos, Cainã gerou Maalaleel.
Depois que gerou Maalaleel, Cainã viveu 840 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 910 anos e morreu.
Aos 65 anos, Maalaleel gerou Jarede.
Depois que gerou Jarede, Maalaleel viveu 830 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 895 anos e morreu.
Aos 162 anos, Jarede gerou Enoque.
Depois que gerou Enoque, Jarede viveu 800 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 962 anos e morreu.
Aos 65 anos, Enoque gerou Matusalém.
Depois que gerou Matusalém, Enoque andou com Deus 300 anos e gerou outros filhos e filhas.
Viveu ao todo 365 anos.
Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o tomara para Si.
Gênesis 5:1-24

O autor do Eclesiastes, quando reflete sobre a vida, nos diz que "É melhor ir a uma casa onde há luto do que a uma casa em festa, pois a morte é o destino de todos; os vivos devem levar isso a sério!”
Na morte, aprendemos mais sobre a vida, seu valor, seu sentido.
Lembro também do salmista que nos estimula, no Salmo 90, "a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria”.

Por isso nos reunimos aqui para nos despedirmos, para manifestarmos o nosso amor a dona Áurea, que nasceu Aura Celeste. Estamos aqui para agradecer por sua vida.  
As vezes, vovó reclamava de algo na história de vida dela - que não foi uma vida fácil - e eu fazia questão de lembrá-la: “Mas vó: se você não tivesse vivido isso, não estaríamos aqui”.
Não se trata de sina, nem de destino. Mas se trata de compreender e viver intensamente a vida.  Como ela viveu.

Pensando no que dizia o salmista sobre contar os dias, ontem, ao entendermos que a trajetória de Dona Áurea chegava ao fim, fiz umas contas.
Dona Áurea faleceu na madrugada do seu dia de número 34071. Viveu, bem vividos, 93 anos, 3 meses e 10 dias.  
Bastante vida. 

Sempre gostei muito do texto de Gênesis 5, que li no início.

Trata-se de uma genealogia mas é bem mais que uma genealogia. Para mim, uma lição sobre a vida.




Há um refrão no texto, uma mensagem constante e repetitiva, marcante para nós: "Viveu [...] anos e morreu".
E morreu.

Com Alberto Camus aprendo sobre a ideia da absurdidade: a vida não tem nenhum sentido diante da morte, que é a nossa única certeza.  É preciso um projeto, a construção de um sentido, de um objetivo, de uma razão.

Caminhamos na vida em busca de um sentido.

Uma das razões da vida para a vida pode ser o legado.  Lembro de Jeorão, rei citado em 2 Crônicas 21, de quem se diz que morreu "sem que ninguém o lamentasse" (v. 20).  Jeorão foi alguém que morreu sem deixar um legado. Sua morte não fez falta porque sua vida não fez diferença.  

A tentativa de fazer a vida se prolongar após a morte com base em um legado é um dos nossos mais intensos projetos.  Porque todo mundo morre.


Gênesis 5 nos diz que todo mundo morre. 
Menos um. 
Enoque resiste à morte e vive.  

Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o tomara para Si

A diferença em Enoque é que ele permanece vivo porque já não é ele quem vive, mas Deus nele. 

Não nos fala necessariamente de imortalidade, mas de permanência. 

Seu legado é a permanência, sua vida permanecendo pela marca que deixou.

Vovó se vai deixando aqui suas marcas. 

Cinco filhos (além de Rita Maria que faleceu bebê), nove netos (além de Elisabete que faleceu aos 17 anos). Já são quatro bisnetos. 

Neles, em nós, sua vida continua. Em nossas memórias, em nossas histórias, em nossas lembranças, em nosso amor, carinho. Até mesmo na dor e na saudade. 

Dona Áurea permanece.

Não era perfeita, mas era autêntica, como gostava de se referir a si mesma. 

Tenho algumas lembranças afetivas bem antigas de minha avó.
Lembro que gostava de ir dormir na casa dela, nos fins de semana. 

Gosto da lembrança de deitar em seu colo, nos sábados à noite, enquanto ela assistia o programa de Agnaldo Rayol na velha tevê preto e branco a válvula. 

Amava o cheiro e comer seu arroz refogado com cenouras.
Lembro de irmos à praia de Ponta Negra e lembro de sua roupa e de seus óculos de sol elegantes.

Lembro de suas almôndegas de carne recheadas com pão de forma de leite. Que delicia! 

Por meio dela, o evangelho chegou a nosso pequeno núcleo familiar.  

Foi a primeira a se batizar lá em casa. 

Gostava de música. Gostava de cinema. 

Era tão performática, como disse Kênia mais cedo, que sempre pediu que seu velório tivesse como música de fundo o Réquiem de Mozart.

Amava Zorba, o grego. Gostava de O violinista no telhado. Chorava com saudades em Pedaço de mim - as canções que vocês ouviram aqui desde cedo.

Tinha um único irmão, Edinor, tio Biodo, com quem brincava sobre qual dos dois iria primeiro. Ganhou a aposta, porque Biodo partiu antes.
Adorava votar. E quando começou declínio, semanas antes da eleição de 2010, ficou muito chateada por não poder votar em Dilma.

Essa é sua permanência conosco. 

Ela está aqui - sempre estará.  

Ela se vai e nós lamentamos muito.

Só vamos desobedecê-la em uma coisa: não vó, sua lápide não vai dizer “aqui jaz uma pessoa muito contrariada”, nem vamos doar seu corpo para a ciência. 

Precisamos do nosso luto, de nossa despedida, precisamos dizer adeus. 

É no humano que vemos Deus encarnado.  Foi isso que Jesus fez conosco, o Homem-Deus. Ele nos ensinou que Deus só pode ser conhecido a partir de nós em nossa humanidade.

Um filme infantil de que gostei muito foi "Festa no céu": os mortos, na lenda mexicana, vivem na terra dos lembrados ou morrem na terra dos esquecidos. E o amor, bem, ele é capaz de fazer viver a vida.

Essa é a ideia.  Sempre gostei de pensar em que Enoque é diferente para que sua vida sobreviva à morte.  Ele já não era encontrado porque Deus o tomou para Si.  

Se há projeto para enfrentar a absurdidade da morte, se há um legado possível, ele se dá quando nós não somos mais encontrados porque Deus nos tomou. Olham para nós e O veem.  Ainda que morramos, viveremos.  No legado. No projeto. Na memória. Na terra dos lembrados. A nossa vida faz a diferença e, portanto, se prolonga.

Por isso temos certeza - seu legado, sua permanência, sua memória, nossas lembranças nos provam - que você andou com Deus; e já não foi mais encontrada, pois Deus a tomou para Si.

Tudo agora é mais calmo. Como disse meu amigo Elienai, se no início Deus era o verbo, no fim Ele é só o abraço.


Que nós aprendamos a contar nossos dias e alcançar coração sábio.

12.11.15

Minha participação no Seminário Ler Faz Crescer da Prefeitura de Ipanguaçu

Fui convidado esta tarde para participar do 3o Seminário Ler Faz Crescer, da Prefeitura de Ipanguaçu (RN). Era a mesa "Diversidades Religiosas, Educação e Direitos Humanos: o desafio da escola frente à discriminação e à violência”. Minha condição de saúde me impediu de ir a Ipanguaçu, infelizmente. No entanto, eu gravei a minha participação para a mesa:

24.10.15

O meu Deus é um Deus injusto

Muita fé religiosa e muita convicção teológica se elabora a partir da ideia de que existe um Deus justo, cuja justiça tarda, mas não valha.
Justiça, aqui, sempre entendida como retributiva, como sendo resultado de um sistema de leis que, quando quebradas, precisam sofrer sanções. 
A própria religiosidade sacerdotal e legalista do AT se elaborou sobre esse ponto. 
Elaborações teológicas posteriores continuaram neste caminho. Teologias cristãs e protestantes afirmaram que o sacrifício de Jesus era necessário para resgatar os eleitos da condenação da lei. A justiça tinha de ser feita, redributiva como se crê, para que a graça e o amor fossem alcançados.
Ainda que tal concepção tenha sentido numa lógica humana, contradiz por inteiro a noção de graça e de amor infinitos e imensuráveis. Se olho para Jesus, sua encarnação (Deus se fazendo um de nós), sua vida é sua morte falam de um Deus que, se for justo, não o será para garantir que recebamos benefícios ou punições a partir dos nossos atos. O Deus que se encarna em Jesus ao se tornar um de nós já rompeu essa ideia na base. Ele vem até nós, nos amar, perdoar e salvar de graça. Não exige nenhuma expiação no lugar.
Mas o texto sobre o qual pensei nesses dias emerge da tensão da teologia do templo com a teologia viva e profética do povo do AT. É Jó.
Jó é um estrangeiro. Não é judeu. Para a teologia judaica do templo só no templo do Deus de Jerusalém era possível conhecer a Deus.
Mas quando começamos o texto, lemos Deus dizer duas vezes que Jó é um homem justo, correto, santo. O texto nos prepara: Jó vai sofrer mas não é culpado. O sofrimento é contingência da vida humana, não é resultado de seu pecado.
Seus quatro amigos (começam três e depois se introduz Eliu do nada) passam o livro todo tentando convencê-lo que sofre porque pecou contra Deus, porque  Deus é justo e, portanto, qualquer sofrimento ou dor só pode nos abater como resultado de nossos próprios erros. Um Deus cuja justiça é retributiva. Esse Deus aparece na teologia calvinista e no Kardecismo, por exemplo. 
Mas o leitor de Jó sabe que seus amigos estão errados. Jó nada fez para merecer sofrer. 
Aí, no fim do livro, depois da restauração,Deus deixa isso ainda mais evidente:
“Depois que acabou de falar com Jó, o Senhor disse a Elifaz, da região de Temã: — Estou muito irado com você e com os seus dois amigos, pois vocês não falaram a verdade a meu respeito, como o meu servo Jó falou.”
Jó 42:7
O que os amigos de Jó falaram não é a verdade a respeito de Deus. Deus não é esse da Justiça Retributiva que eles defenderam.  
Para quem pensa em um Justiça divina na base do "tarda, mas não falha", "o que a gente faz volta para a gente", o Deus revelado na Bíblia é injusto. Quem pensa em Justiça divina na base do Karma tem dificuldade em pensar num Deus que não é vingança, punição ou revanche.
Justiça para o  Deus que a Bíblia revela é igualdade. 
O enfrentamento e a destruição de todas relações de poder de exploração e desigualdade. É essa justiça a base de julgamento divino.
Se você espera um Deus que aja na base do "aqui se faz, aqui se paga", Jó desfaz sua ilusão.
E sei que é duro sair de tão ilusão porque deixar de crer na Justiça de Deus dessa forma exige de nós um triplo movimento: encarar a vida, assumir a responsabilidade por ela e se tornar agente da Justiça de um Deus que se encarnou para que conhecêssemos o caminho. O outro caminho, da fantasia de Deus e da Justiça Retributiva, é mais tranquilo e apaziguador porque exige de nós pouco mais do que seguir um manual de instruções.
“Antes eu te conhecia só por ouvir falar, mas agora eu te vejo com os meus próprios olhos.”
Jó 42:5

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