18.1.06

Fora dos padrões

Então o Senhor passou por ali e mandou um vento muito forte, que rachou os morros e quebrou as rochas em pedaços. Mas o Senhor não estava no vento. Quando o ventou parou de soprar, veio um terremoto; porém o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto veio um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo veio uma voz calma e suave.
1 Reis 19. 11 – 12

Já pensei várias vezes nesta passagem da história de Elias. Já escrevi sobre ela, inclusive. Mas ela sempre me fala muitíssimo. E me fala de novo. Esses dias tenho tido a experiência de voltar a viver na pele uma parte do que me ensina esse texto.
Uma coisa que surpreende no texto é a constatação de que Deus não se manifesta de uma maneira que se pudesse esperar para o profeta. Depressivo, andando há quarenta dias, pedindo para morrer, Elias tem uma experiência de restauração inusitada. Deus vem a ele para livrá-lo, não em um culto, não em um templo, não em qualquer forma religiosa esperada, nem muito menos de alguma maneira espetacular ou por um sinal milagroso. Deus vem a ele em uma voz suave, um vento fraco. E lhe fala e lhe restaura, renovando suas forças.
O que alguns de nós tem aprendido a experimentar é que Deus não está preso aos pressupostos, paradigmas e regras de nossos cultos religiosos. O principal aspecto que vejo nessa história de Elias é que Deus é soberano, mesmo quando nós, humanos, tentamos afirmar um deus moldado segundo o nosso querer. Todos nós, quando religiosos, construímos uma imagem de nosso deus. Nossas igrejas fazem isso. Desse modo, Deus só poderia nos restaurar de uma situação como a de Elias por meio de um sinal visível, de uma oração de poder, de uma revelação ou um milagre inefável. Qualquer coisa fora desse modelo e dessa imagem que construímos em nosso coração do deus que achamos servir, nos choca e nos escandaliza: Não é Deus ou Não vem de Deus, bradamos de imediato. A história de Elias nos mostra um Deus que se manifesta independentemente dos padrões e expectativas humanos.
Lembro que há dois anos choquei um presbítero de minha igreja quando lhe falei que Deus tinha usado uma música dos Titãs para me restaurar de uma severa crise. Não fuja da dor era a música e falava, de maneira profundamente bíblica – ao menos para mim – sobre a melhor forma de encarar o sofrimento e de como a dor é pedagógica. As pessoas são assim: se acham proprietárias de Deus. As nossas igrejas são assim: acham que só há uma forma de cultuar a Deus – o culto correto é o de Jerusalém ou da Samaria (Jo. 4. 20 – 21). Qualquer coisa que fuja ao script ou ao modelo pré-estabelecido, é rechaçada.
Era de se esperar que na difícil situação do profeta Elias a sua cura viesse de uma maneira diferente. Se ele fosse membro de uma de nossas igrejas, supomos, era de se esperar que ele fosse atrás de pastor Fulano ou Beltrano, homens de poder; ou iria a um culto de oração “de fogo”; ou visitaria uma igreja que fosse reconhecida como “de milagres”. É esse preconceito que o nosso texto quebra. Então o Senhor passou por ali e mandou um vento muito forte, que rachou os morros e quebrou as rochas em pedaços. Mas o Senhor não estava no vento. Quando o ventou parou de soprar, veio um terremoto; porém o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto veio um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo veio uma voz calma e suave. Deus não está preso às nossas expectativas ou aos nossos padrões. Ele é o Senhor, não nós.
Voltei a pensar nesse assunto por uma experiência que tive semana passada. Viajei a João Pessoa para conhecer uma parte de minha família que não conhecia ainda. Apesar de uma parte considerável de minha família, inclusive em João Pessoa, ser evangélica, convivi por lá, basicamente, com cinco primos que não são. E quando, talvez, nosso espírito religioso pudesse esperar que isso poderia me empurrar mais para baixo, ao contrário, senti que Deus começou a restaurar algumas coisas quebradas em minha alma a partir do relacionamento com esses jovens – primos em segundo grau, quero esclarecer – que, aos olhos dos religiosos evangélicos, não querem nada com Deus. Mas foram e tem sido bênção de Deus na minha vida. Ensinando-me, inclusive, a quebrar ainda mais meus preconceitos: Deus não está preso ao que penso dEle. Ele não está preso à forma como agiu ontem. Não está preso à maneira como a igreja O vê. Não está preso ao culto. Não está preso à igreja. Nem age apenas de certas maneiras e não de outras. Deus é livre. Ele age e nos abençoa, sempre, das maneiras mais surpreendentes. Eu sei disso porque estou vivendo isso. Então o Senhor passou por ali e mandou um vento muito forte, que rachou os morros e quebrou as rochas em pedaços. Mas o Senhor não estava no vento. Quando o ventou parou de soprar, veio um terremoto; porém o Senhor não estava no terremoto. Depois do terremoto veio um fogo, mas o Senhor não estava no fogo. E depois do fogo veio uma voz calma e suave.

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